Aboprev - Associação Brasileira de Odontologia de Promoção de Saúde

ABOPREV – flashes históricos, pictóricos e pensamentos bucólicos

Foram nos últimos 50 anos que ocorreram:

(1) as maiores mudanças na expectativa de vida dos seres humanos,

(2) a grande aceleração nos “avanços” tecnológicos e

(3) o mais importante desenvolvimento científico na área da saúde.


Do homem de Neanderthal até quatro gerações atrás, a longevidade média era 29-30 anos. Para os nossos bisavós essa média passou para 32-33 anos e hoje após três ou quatro gerações pulou para 79-82 anos. Como se considera “velhice” os últimos dois anos de vida, esta passou de 30-31 para 77-80 só nestas últimas três a quatro gerações (Domenico Di Masi).


Com uma maior expectativa de vida altera-se o paradigma anterior de busca “por mais anos de vida” para o atual “de mais vida aos anos”. Plantou-se um marco diferencial na área da saúde – investir em saúde como base para uma melhor qualidade de vida.


Mais do que ter doenças e procurar tratá-las, inicia~se a busca por evitá-las, ou seja, prevenção, que evoluiu para uma busca por cada vez melhor saúde.


Até os anos 50 predominavam ações de alívio da dor, e o atendimento médico-odontológico concentrava-se na solução de situações agudas.


A partir dos anos 60, com o conhecimento científico odontológico descobrindo a etiologia das duas principais doenças bucais (cárie e doença periodontal) cresce o controle dessas doenças e procura-se não mais extrair dentes, mas preservá-los.


Na década de 70 estabelecem-se os princípios de prevenção dessas duas doenças, que começaram a ser aplicados pioneiramente na Escandinávia.


Graças à NORAD (Agencia Norueguesa de Ajuda ao Desenvolvimento) entre 1970 e 1973 e à FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) em 1979, tive a chance de estar em Oslo e acompanhar de perto, por quatro anos essas pesquisas e ações pioneiras de prevenção. Os resultados obtidos foram impressionantes tanto na Noruega, como na Dinamarca e na Suécia.


De volta ao Brasil em 1973, após concluir o curso depós-graduação em periodontia pela Universidade de Oslo, estava diretamente interessado em divulgar a mudança de paradigmas da época, ou seja: de Atenção à Doença, para Prevenção. Assim paralelamente, ao ministrar cursos de periodontia muito solicitados pois a área estava em alta, fui procurando introduzir as idéias preventivas, pois já visualizava as perspectivas de grandes mudanças não somente no exercício clínico, como principalmente em Saúde Pública. Enquanto na Escandinávia, o grande visionário que me impulsionou foi o professor Jens Waerhaung (introdutor das bases da etiologia da doença periodontal e para as pesquisas de gengivite e cárie experimental), aqui no Brasil, quatro colegas ajudaram-me e colaboraram apoiando as idéias e a prática da prevenção: em São Paulo o professor Antonio Césio de Paula Lima, pioneiro do controle da placa e da Prevenção em Periodontia e outro visionário na Faculdade de Higiene e Saúde Pública da USP ( professor Alfredo Reis Viegas), no Rio de Janeiro outro entusiasta clínico, José Luis Freire de Andrade, idealizador dos “Encontros da Placa” e mais um grande organizador ao nível de Saúde Pública, em Porto Alegre, na Faculdade de Odontoligia da UFRGS (professor Paulo Louro filho). Essa colaboração foi abrindo muitos espaços para a divulgação do paradigma preventivo.


Voltando à Escandinávia em 1979, pude debater saúde bucal, a profissão, periodontia e prevenção sob a ótica das perspectivas para o Brasil com o professor Jens Waerhaug, ao mesmo tempo que amadurecia a idéia de criar um fórum de amplitude nacional, para possibilitar uma participação o mais ampla possível da comunidade da área da saúde.


De volta ao Brasil, juntamente com os colegas Marcelo Galante, Paulo Guerra Filho e Luiz Antonio Todescan iniciamos, em 1980, uma série de reuniões para materializar a idéia da formação da Associação Brasileira de Odontologia Preventiva, cuja sigla seria ABRAVA, que da odontologia preventiva pegava o VA, que vá! Luiz Antonio, um “expert” em estatutos trabalhava intensamente em todos os detalhes necessários; Paulo trabalhava ajudando a montar as bases financeiras (uma entidade sem dinheiro está fadada ao fracasso, dizíamos) e Marcelo um entusiasta em motivar colegas a participar da criação.


Tínhamos colocado como meta agrupar 80 colegas que contribuíssem com uma quantia inicial, para formar um fundo para as primeiras despesas, com sobras para o inicio das atividades.


Da Escandinávia veio uma contribuição direta de dois professores Per Axelsson e Douglas Brathall, que se dispuseram a vir ministrar dois cursos inaugurais, sem nenhuma remuneração, apenas as passagens ( classe econômica) e estada.


Na USP, o então diretor, professor Dioracy Fonterrada Vieira, entusiasmado com a idéia, colocou á disposição o Auditório da Cidade Universitária, para o evento, coroando a solenidade com um concerto da Orquestra Sinfônica da USP, numa das noites do evento.


Como a história tem seus caprichos, após a melhor divulgação pelos meios de comunicação da época e a adesão de mais de 200 colegas, passagens enviadas para a Suécia e tudo acertado, o “super entusiasta” da prevenção Per Axelsson, que por medida preventiva tinha ido ao centro de moléstias tropicais da Suécia e recebido um “calhamaço” de vacinas, telefona-me de um hospital público sueco (que, na época, já tinha telefone no quarto) - tivera uma reação de trombose ás vacinas e não poderia viajar tão logo – são as ironias do destino uma trombose pela prevenção! Não adiantava a Abrava ficar brava: a correria estava armada; em dois dias foi preciso avisar os colegas do adiamento “sine die” da inauguração – haviam inscritos de muitos estados do país e na época não existia e-mail, msn, celular, só telefone mesmo. Um alto sufoco executivo, nada preventivo.


Mesmo assim, um mês depois o evento teve sua chance e a ABRAVA estava criada com um sucesso maior que o esperado: ao invés dos 80 avaliadores que aportavam dinheiro, a marca dos cem foi superada e os cursos lotaram o auditório da USP. Ainda tenho em meu poder as plaquetas individuais dos primeiros sócios que acreditando na idéia, contribuíram com significativa soma inicial. Essas plaquetas são do primeiro mimeógrafo da entidade e que, para efeito de arquivo histórico, estou listando-os e ncluindo anexo no final.


O impacto da associação foi bom, mas no meu entender ainda estava muito limitado.


Por isso, pensei que se conseguisse motivar colegas, formadores de opinião, oriundos de diferentes regiões brasileiras, a difusão seria muito maior.


A oportunidade surgiu no congresso da FDI no Rio de Janeiro , quando com a ajuda do professor Per Gjermo (Noruega), reunimos os professores Sheiham (Inglaterra). Kahn (Dinamarca) e Axelsson (Suécia) e montamos as bases para uma viagem de estudos pela Dinamarca, Noruega, Finlândia e Inglaterra, com palestras e visitas a vários serviços de saúde bucal, faculdades de odontologia e clínicas onde prevenção era praticada.


Assim, em 1982 partiam para essa viagem 27 colegas oriundos de vários estados brasileiros e que, segundo eles mesmos, mudou enormemente suas perspectivas pessoais em saúde. A maioria engajou-se no trabalho da ABOPREV, cooperando decisivamente para o seu crescimento.


Porque a ABRAVA agora é ABOPREV? Mais um capricho da história: não muito tempo após a formação da associação, recebo um telefonema de um advogado, identificando-se com representante da Abrava, explicando que eles eram anteriores a nós e teríamos que mudar a sigla. Quem eram eles? Nada mais nada menos que Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento! Sem dúvida toda essa circulação de ar pode contribuir para saúde, mais eles não queriam farofa no ventilador!


Correria, convocação de nova assembléia e muda-se a sigla para ABOPREV, que de fato emplacou até internacionalmente: além da Escandinávia, a Aboprev tornou-se bastante conhecida em Portugal e Espanha onde a Seepyc (Sociedad Espanhola de Estomatologia Preventiva y Comunitária) não conhecia a APSO( Associação Portuguesa de Saúde Oral) e nos cursos da Aboprev por lá tivemos a oportunidade de entrosá-los, resultando, por muitos anos na organização em conjunto dos Congressos Ibéricos de Saúde Oral.


Por aqui a divulgação foi principalmente na Argentina e Uruguai.


O conhecimento e a prática preventiva das décadas 70/80 coincidem com a crescente busca por melhor qualidade de vida, onde saúde, incluindo saúde bucal, começa a ser meta e um novo paradigma a partir dos anos 90 se apresenta – PROMOÇÃO DE SAÚDE.


Acreditando que é esse o melhor caminho para o ser humano e pensando em colocar o fórum da ABOPREV aberto para ele, propus no congresso de Gramado alteração do nome da ABOPREV para Associação Brasileira de Promoção de Saúde Bucal, que foi aceito por unanimidade, apenas mantendo-se a sigla por já estar bastante conhecida e sedimentada. O nome foi alterado no congresso subseqüente em São Paulo, para Associação Brasileira de Odontologia de Promoção de Saúde, nome esse que considero mais restritivo e que coloca a promoção de saúde como mais um compartimento da odontologia, quando deveria ser tão ampla que congregasse toda a odontologia e ainda qualquer outra atividade de saúde.


O entusiasmo e a participação de colegas foram por muitos anos crescentes, mas já se passaram 25 anos e é evidente que aquele entusiasmo vem decrescendo. As comemorações desse quarto de século foram cercadas de preocupações: parece existir um desinteresse crescente dos profissionais por uma visão mais globalizada da saúde e por uma atuação mais direta na qualidade de vida, o que, obviamente, exige uma formação mais ampla que de “especialidade”. Exige primeiramente uma formação humanística e uma prática que, embora deva incorporar toda a base científica e os aprimoramentos tecnológicos, alicerça-se na educação e na participação de cada indivíduo. De fato, governo e sociedade têm a responsabilidade de criar e propiciar as melhores condições possíveis de (vida) saúde – habitação, educação, emprego, serviços de saúde, esporte, lazer, transporte, segurança..., mas a responsabilidade de participação é individual. Por outro lado, quanto maior for o sucesso na Promoção da Saúde, menos tecnologia será necessária, menos trabalhos profissionais de reparação e menos dentistas!


Agora o dedo na ferida: os últimos 20 anos marcaram uma mudança brutal no mercado de trabalho, não só, mas também na odontologia: a sobrevivência dos profissionais está cada vez mais difícil e mais competitiva. Cresce a busca por, nem digo, mais “especialidades”, mas atividades que “supostamente” dão mais dinheiro e permitem um melhor posicionamento no mercado: estética, implante e ortodontia. Estamos caindo no buraco do rato. Na abundância os ratos se multiplicam e até se entendem, mas na falta de alimentos e no desespero da sobrevivência, comem-se uns aos outros – o conhecido canibalismo!


Com o excesso de profissionais concentrados em muitas áreas do país, evidencia-se um aumento na competitividade, com dificuldades cada vez maiores de sobrevivência – ninguém levantará a bandeira em defesa de nós dentistas, só nós mesmos poderemos fazê-lo e evitar o canibalismo.


Acredito que a ABOPREV, hoje, pode e deve abrir seu fórum de debates, também na promoção de Saúde de seus associados e de nossa classe, buscando o reencontro dos caminhos de Saúde e lutando por uma política de Saúde que procure adequar a quantidade de profissionais e as necessidades brasileiras. É claro, se a qualidade de vida melhora, a ação profissional muda de perfil e a relação profissional/população se alterará drasticamente.


Quanto melhor o resultado das ações de Saúde menos profissionais com o perfil curativo serão necessários. Com menos acidentes (doenças) serão necessárias menos funilarias (consultórios), mas, mais engenheiros de tráfego e planejamento urbano ( dentistas com o perfil de Promotores de Saúde ou seja, com melhor formação humanística e de educador).


Halmilton Bellini